sexta-feira, fevereiro 29, 2008

A vida entremeada

Todos sabem que tenho uma mini-novela em andamento. Havia dado um tempo. Hoje publico, novamente, os 3 primeiros capítulos. Vou dar uma geral nos próximos e re-publicar aqui. Divirtam-se

Primeiro Capítulo - Louco
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Observava, na esquina escura daquele beco fedorento. A fumaça do cigarro irrita meus olhos. Mas não perco de vista a janela. Não uma janela qualquer, a janela dela. Pensava nos últimos dias. Em como eu, cafajeste, havia caído tanto. Me sentia sem chão. Meu mundo todo revirado. Por causa dela. Todas as minhas angústias e medos surgiram. Como um furacão, varrendo para longe toda e qualquer esperança de proteção. Seu perfume, o cheiro que exalava depois do banho, suas curvas, aquele olhar safado e ao mesmo tempo terno. Suas doces palavras de carinho. As horas ao meu lado. Sua mão me amparando quando caía na sarjeta, embriagado. Sangrava por ela. Pela mulher-amante que tinha esbarrado sem querer. “Mas que merda!”, exclamei mentalmente. Onde estariam meus brios de macho comedor? Como iria encarar a roda do bar. Onde conto minhas conquistas, cada detalhe sórdido, das trepadas que dava. Onde bebo com prazer os olhares invejosos dos meus amigos. Onde tantas vezes enchi a cara para esquecer, dela. A janela escura não dava o menor sinal de esperança. Esperança de quê, porra? De ter uma vidinha mais ou menos, da infernal rotina do casamento? Do papai-e-mamãe regulamentar, que tantas vezes ouvira os otários casados reclamarem? Que se foda. Eu quero esta merda. Casaria com prazer, com ela. Por que não disse antes? Sou uma besta. Agora estou aqui, numa esquina fétida, angustiado, cercado por amarguras, desesperançado. Onde estará ela? No mínimo trepando com outro otário, que se deixou levar pelo canto de sereia. Vagabunda. Meus chifres crescem. Cadê a maldita garrafa? Aqui, aqui, ah, minha companheira, que tanto me consolou. Que presenciou minhas conquistas fugazes. Apoiou nas horas incertas e inúteis. Dê-me um gole. Um não, vários. Preciso de lucidez, coragem. Vislumbro um vulto. Há luz agora. É ela, minha amada. Não, a piranha que me sugou a alma. Apago o cigarro, o último. Dou meus passos. Dou-lhe um tiro.

Vagabunda.

Segundo Capítulo - Escritor
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Depois de horas, olhando aquela resma de papel, me dei por vencido. Meus dedos travaram, minha boca secara. A mente se transformara em um campo estéril, sem vida. Minhas idéias se diluíram no mar de álcool consumido. Olhei o fundo do copo. Nenhuma gota, nada. A inspiração não deu sua cara, debochada. Ficou, talvez, perdida em meio à fumaça, dos muitos cigarros que fumara. O silencio era quebrado pelo bater ritmado do relógio de parede. A penumbra sufocante daquele quarto não me dava trégua, insuportável. Angustiado resolvo sair. Pela janela observara o movimento sutil da cidade. Talvez ali encontrasse essa musa desgraçada que atira, sem piedade, seu escárnio em meu rosto. Um vento frio me envolve. Uma bofetada. Encolho-me. Caminho pelas ruas já escuras. Ouço o som dos carros, das risadas bêbadas de algum bar próximo. Meus passos são absorvidos pelo pulsar do coração pétreo que sustenta a cidade. Pedras, pedras. Desvio para o beco mais próximo. Talvez ali, em meio ao fétido cheiro de lixo apodrecido, encontre-a. Musa, vagabunda. Flertando com outro, como uma rameira. Talvez na próxima esquina. Atento, ouço passos. Um tiro. O grito amargurado transborda da janela semi-aberta.

Encontro, enfim, a inspiração.

Terceiro Capítulo - Megera
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Cidade miserável essa, 3 horas para chegar em casa, bosta de subúrbio. E isso de acordar às 5 da manhã? Não é para uma cristã como eu. Bem feito, sua burra. Bem que minha mãe dizia que era para ter casado com o Ernani, o que virou supervisor do supermercado. Esse zinho aqui é um cretino, um merda mesmo. Sem ambição. Um coitado. Fica o dia todo largado por aí, deve estar no bar agora, o desgraçado, bebendo com aqueles amigos chinfrins. Ainda bem que não tem futebol. Mas a Inês é morta, como dizia meu pai. O que é pior é o ônibus. Ficar espremida em pé é coisa de pobre. Aquela esfregação é coisa do demônio. E aquele cheiro de bodum, meu Deus. Ah se soubessem que gosto mesmo é de um homem perfumado, e ainda quando é bem servido. Que nem o namorado dessa vaca do lado. Bem apanhado, educado, respeitador. E a putinha ainda por cima esnoba com ele. Não sei o que ela viu naquele outro, o que tem cara de tuberculoso. Isso ainda vai acabar mal. Eu que não vou fazer fofoca. Se bem que se o bonitão largasse dela eu podia me aproveitar. Já vi como ele olha pra mim, guloso. Guloso e safado, o homem. Ai meu Deus, tenho que ir a igreja. Já tem uma semana que não me confesso. E essa quentura aqui no meio das minhas pernas não é normal. O inútil não preparou nada pra janta. De novo. Vou me virar com o que tem. Estou tão cansada. Bosta de vidinha ridícula. Bosta, bosta, mil vezes bosta. E a vaca da vizinha no bem-bom. Deve estar trepando por aí, a meretriz. Olha ela aí chegando toda faceira, que inveja. Ai meu Deus, um tiro.

Deu cabo dela o corno. Bem feito, rameira.

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