O agudo silvo do apito anunciou a partida. Na plataforma os últimos enfermos são amparados em seu embarque. Estranhamente não há despedidas. Apenas alguns sãos, com suaves sorrisos. Não há choros, lágrimas ou risos. Não há atrasados em louca disparada. O choque e a dor, companheiras das súbitas partidas, estão lá, impávidas, inclementes. O lento iniciar da viagem é ainda desconexo. Não desperta aqueles que dormem. Fecham-se as portas. Encerra-se uma estada, breve, mas jamais passageira.
Uma multidão encaminha-se, inexorável, à estação. Sem aflições, apenas incertezas. Ouço o sino dobrar, marcante, definitivo. Por todos nós.
Sábado, Agosto 02, 2008
Partida
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Terça-feira, Maio 27, 2008
Além
Uma boa noite lhe desejo, meu caro, ou um bom dia tardio. Sabei-me um embriagado esse que vos escreve. O céu amanheceu cinzento, como o pesado coração que carrego. A fronte retumba como címbalos. Sei lá eu que maldita bebi. Vestido em ricos andrajos, lembro vagamente do cambaleante andejar. Tracei meu rumo pelas estrelas, assim não me perderia entre os becos imundos. Parece-me que hoje já não sou aquele que era. Perdi as estribeiras, o siso, a questão irrespondível. Mas logo, o bafejo da maresia, naquela última esquina na praia de tão alegres lembranças, trouxe-me alento, meu amigo. Aspirei o ar salgado e, agora lúcido, pude vislumbrar a penúria de minha situação. Decidido vou-me, mas sem antes dizer-lhe que o convívio consigo foi um privilégio.
Não haverá mais o singelo florir de Ipês. Nem jamais irão chilrear os sabiás.
Parto, mas volverei.
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Quarta-feira, Maio 21, 2008
Ato
Já disse antes, nas tardes frias do outono, que ainda nada sei sobre o amor. Sei apenas o que sinto. As batidas arrítmicas que ora falham, ora teimam em pulsar distantes, no livre olhar, de tua sombra delineada. O rasgar da alma, no ouvir etéreo de sua voz, mas o amor mesmo não conheço, não lhe fui apresentado.
Sinto-me um trapezista, triste artista, que no ar se lança, sem rede.
O inverno da minha vida se aproxima.
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Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008
Meu querer
Não, não quero ir para Pasárgada. Nem quero ser amigo do rei. Quero é ir para o puteiro, onde não quero favores. Não escolherei mulheres. As putas que me amem pelos poucos trocados que trago no bolso. Qualquer uma. As altas, as baixas, gordas ou magras, as falsa pudicas, as devassas. Quero cantar sobre a mesa, minhas canções indecentes. Declamar palavras sujas. Dançar lascivo no meio do salão. Não quero os aplausos. Não os mereço. Apenas me amem.
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Estou de ótimo humor e respondi a um meme, isso merece uma visita. Leiam AQUI.
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Terça-feira, Janeiro 22, 2008
Víboras
Não há nada mais insidioso do que a fofoca gratuita. A mesquinhez daqueles que se julgam donos da verdade. Atacando pelas costas, como repugnantes escorpiões. Sim são donos, de um voyerismo escroto, delirante, que só uma mente perturbada poderia produzir. Ergo meu cálice, da doce cachaça. Embebedo-me em minhas letras. Traço meu rumo, justo e repleto de obstáculos. Não preciso de ajuda para ir ao inferno. Sei o caminho sozinho. Mas enquanto pasto nestes campos, esqueçam-me. Sumam daqui víboras. As mordidas de suas bocas putrefatas não me afetam. Já tenho quem me morda. E ela me enlouquece.
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Segunda-feira, Dezembro 31, 2007
Previsões
Um assombro, assim defino meu futuro imediato. Cunharei minhas moedas nas calejadas mãos, estendidas em súplica. Sofrerei as dores, físicas e metafísicas, do parto criativo. Pregado, à cruz urbana de minhas ansiedades, perdoarei meus pecados. E amaldiçoarei meus inimigos. Sim, sou vingativo e rancoroso. À moda antiga. Duelo permanente, com minha insana mente. Entoarei canções burlescas, nas mesas dos bares. Erguerei brindes aos que se foram e aos que virão. Amarei minhas mulheres. Ardor e paixão serão minhas sinas. Lavarei os lençóis, manchados com o despejado amor, em sabão em pó. Açoitado, não dobrarei meus joelhos. A cada vívido dia vivido, irei agradecer. E, no fim dos tempos, serei julgado e condenado.
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Hoje, cumprindo sua promessa, o grande mago Heitor Caolho, o maior representante do esoterismo oportunista e presidente perpétuo Hector Hereeye Foundation, faz suas previsões para o ano vindouro. Leiam todas elas AQUI.
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Sábado, Dezembro 22, 2007
Feliz Natal
Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.
Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.
Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.
Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.
Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.
Carlos Drumond de Andrade
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Domingo, Dezembro 16, 2007
Fantasma
Parido, como rejeito nasceu. Em meio ao lixo. Mais um maltrapilho. Sem esperança, enjeitado. E cresceu, sobrevivente. Sua insanidade também. Louco manso, diziam. Lutava pelos restos, sobras de outro mundo que não conhecia, não entendia. Perdia-se em sua amargura. E vivia, um pária, uma sombra pelos cantos. Acordou, certa noite, aos gritos. Uma presença. Se real ou não, jamais saberia. Matou o indesejado, matou-se em seguida. Maldito natimorto indesejado.
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Pessoal, o debate foi intrigante. Polêmico. Vou publicar sobre o assunto mais tarde ou na segunda.
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Terça-feira, Novembro 27, 2007
Interior-cidade
Sou um curioso, que na natureza humana me embrenho. Pretendo ser um explorador, quando sou eu o explorado. Observo os passos e meneios dos que me cercam. Imagino, ingenuamente, o que fazem de suas vidas. Seu dia-a-dia comezinho. Invento diálogos. Imaginárias famílias, tramas e dramas. Teço, incólume, minha teia. Arremedo de armadilha mortal, o terço. Escapam-me certas nuances. Talvez por ter, eu mesmo, uma vida monótona. Viver na janela, atormentado pelo nada, vendo a vida passar.
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Falatório. É o que ouço. O coreto é o perfeito confessionário, construído sobre notas desafinadas. O marcar do bumbo ritma o passo dos passeantes. As senhorinhas em seus trajes negros, afortunado luto, que as livrou do pesado tacão de seus senhores. As moçoilas, excitáveis, ansiosas pelo primeiro beijo e pelo despudorado amassar de corpos nos muros escuros. Os imberbes, estúpidos bovinos, lançando esgares que chamam de sorriso. Fanfarrões precoces. As famílias, alegres em sua perfeita marcha, fúnebre. A tudo isso, observo, calado. A triste rotina, do passear vespertino e preguiçoso, na velha praça, nos domingos modorrentos.
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Para quem não sabe o que é e gostaria de colocar um feed no seu blog, mesmo sendo UOL, clique aqui.
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Segunda-feira, Novembro 19, 2007
Súbito
Minha vida anda assim, em espasmos. Quando penso que as coisas vão se encaixar lá vem o destino e muda tudo. Vou me esbarrando em acasos. Na maioria, infortúnios. Não queria ir-me daqui assim. Queria deixar minha marca no mundo, na cidade. A cidade sobrevive. Somos como andarilhos, que vêm e vão, mas ela se perpetua. Será meu jazigo, minha lápide, o epitáfio. Em suas negras ruas escrevemos os atos vivenciados, as dúvidas que nos assaltaram e as perdas engolidas, qual trago de amarga bebida. Quero deixar uma obra que o cortante bafejo, do tempestuoso vento, não apague. Só nossas pegadas.
(texto inspirado no poema "POEMA À CIDADE" de Vieira Calado e publicado originalmente no Blog Coletânea Artesanal, no dia 15/11)
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Segunda-feira, Outubro 29, 2007
Contagem
Hoje não irei falar do suave perfume das flores. Ou das nuances surrealistas do pôr-do-sol de um outono qualquer. Vou falar dos espinhos. Da queda das folhas mortas de árvores retorcidas. Quero tecer loas ao intraduzível martírio das criaturas. Uma criatura. Somos desenganados ao nascer. Subtraímo-nos aos pedaços, na contagem regressiva. Vamos, às vezes céleres, às vezes rastejantes, ao encontro da luz no fim do túnel. Mas novamente tergiversei-o. Assunto dolorido esse. A anunciada morte. Mesmo assim ainda repulsa-me a idéia do martírio. Não deveríamos sofrer. Não há dignidade. Nenhuma. Não deveríamos caminhar por uma via sacra para cumprir nosso destino. Prefiro o súbito sumir. Num instante quedar fulminado. Olho, impotente. O caminhar de uma criatura. Um doce ser humano. Observo sua luta insana pela vida. E sei de que nada adianta. Cruel é a esperança. É acreditar. O futuro acabou-se. Finito.
Fim.
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Aos sábados, escreverei um texto inédito no blog Livro Aberto. Prestigiem. Participo também do Coletânea Artesanal. São muitos trabalhos fantásticos. Recomendo a visita.
Leiam o blog Pseudo-Poemas e o que publico no Cantábile. Em ambos estão os textos proibidos pela Bíblia e pelo Vaticano.
E agora no Memórias Póstumas de um Puto Prestimoso.
No dia 11/12 convoco a todos para uma blogagem coletiva sobre o tema. Maiores informações aqui. Divulguem e participem.
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Segunda-feira, Outubro 22, 2007
Filosofia de bar.
Mais uma vez encontro-me aqui. Nesse balcão sujo, enevoado pela fumaça acre e azulada dos incontáveis cigarros que me cercam. Agradeço ao deus, que me serve generosas doses. Abençoados sejam a cerveja, a cachaça e o rabo-de-galo. O ovo colorido. Embriagado, declamo palavras tortas em meio às saudosas lembranças de meus amores direitos. As putas, embevecidas, aplaudem. Chamam-me de poeta. Poeta é o caralho. Sou um louco enternecido. Ouço as estórias das moças. Acredito em todas. Choro por elas. Quero salvá-las de seus infernos. Palavra tola essa. Salvação. Cercam-me ávidas, pelos trocados que brotam de meus bolsos. “Pegue o que é teu antes que alguém o pegue”, ouço. Tenho que salvar a mim. Salvo por minhas próprias ações. Afogo-me no mar alcoólico. Sou um babaca.
Estranhos são os matizes dos ovos coloridos, não?
Escrito pelo Bêbado de Rayol, em um balcão de boteco qualquer. Originalmente publicado no blog Livro Aberto.
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Quinta-feira, Outubro 11, 2007
Areias
Estou me debatendo, e em debate fisiológico com minhas lembranças e inspirações. Em outras épocas ligaria o "foda-se", mas hoje tenho que me render a esse feitor cruel e sanguinário, o tempo. Senhor das mudanças, das arremetidas ferozes e cegas, de lutas cruentas e invencíveis. Tempo, maldito escravocrata, régio e arrogante. Toma-me os poucos fios de meada e transforma-os em pó e cinzas. Debato-me nas movediças areias, nos pantanosos caminhos que escolhi. Estou afundando, orgulhoso. Alguém, por favor, me salve. Eu suplico.
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Aos sábados, estarei escrevendo um texto inédito no blog Livro Aberto. Prestigiem. Participo também do Coletânea Artesanal. São muitos trabalhos fantásticos. Recomendo a visita.
Leiam o blog Pseudo-Poemas. Leiam também o que publico no Cantábile. Em ambos estão os textos proibidos pela Bíblia e pelo Vaticano.
E agora no Memórias Póstumas de um Puto Prestimoso.
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Quarta-feira, Setembro 19, 2007
O homem que esquecia
Em suas andanças vai encontrando pedras. Desconheço a razão de suas existências. São pedras pequenas, aquelas que teimam em invadir os sapatos. Ou pedras grandes, intransponíveis. Pedras que lhe forçam a seguir outras direções. Outros rumos. Não me importo. Sempre sonhou em ser um bandeirante. Escolho, então, as trilhas que se apresentam, mesmo as fechadas por densas matas Não há mais nada. Nem o nada comum, nem o existencial. Não se atém a filosóficos pensamentos. Tergiversei-o. É um paradoxo. Caminha em direção ao desconhecido e não sonha com um oásis. Confuso. Perco-me na espiral do tempo. Traça metas que não atinge. Esqueço os traços, as palavras, as imagens. São borrões em suas lembranças. Quando muito, um fio de memória se mantém. O fio da meada, talvez. Não sei de onde venho. Não sabe para onde vai. Não pode. Não quero. Vive o hoje. O prato de comida. Sacio a fome. Toma em mãos a moringa, que sacia a sede. Uma cama. Isso me basta. Vai andando, maltrapilho. Um pobre mendigo. Caminho no insano esquecimento. Esqueçam-no.
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Fui indicado pela Van, do blog Van Filosofia, com mais um escrito para o "Caneta de Ouro". Ainda estou finalizando a escolha dos meus indicados. Não sabem o trabalho que está dando.
Aos sábados, estarei escrevendo um texto inédito no blog Livro Aberto. Prestigiem. Participo também do Coletânea Artesanal. São muitos trabalhos fantásticos. Recomendo a visita.
Leiam o blog Pseudo-Poemas. Leiam também o que publico no Cantábile. Em ambos estão os textos proibidos pela Bíblia e pelo Vaticano.
E agora no Memórias Póstumas de um Puto Prestimoso.
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Segunda-feira, Setembro 17, 2007
Espera
Somos eternos esperançosos. Esperamos de tudo um pouco, transformar sonhos em realidade, a paixão reprimida em conquista gloriosa, dos estranhos um gesto de compreensão. Trilhamos, inconscientes e claudicantes, o barro primário. Refazemos os caminhos confusos que nos trouxeram até aqui. Tentamos ver através das cinzas de nossas lembranças. Somos cobertos por elas. Obliteram-nos a visão, o livre arbítrio, o olhar direto ao rumo traçado. Rumo. Qual barco, desgovernado, vogamos ao sabor do mar. Atravessando as ondas inclementes, que nos acertam sem dó nem piedade. Não adianta. A esperança é vã. É pífia. É um cais maldito, onde jamais aportamos. Esperamos ansiosos pela salvação. Tristes marinheiros. Todos nós.
Originalmente publicado no Coletânea Artesanal.
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Aos sábados, estarei escrevendo um texto inédito no blog Livro Aberto. Prestigiem. Participo também do Coletânea Artesanal. São muitos trabalhos fantásticos. Recomendo a visita.
Leiam o blog Pseudo-Poemas. Leiam também o que publico no Cantábile. Em ambos estão os textos proibidos pela Bíblia e pelo Vaticano.
E agora no Memórias Póstumas de um Puto Prestimoso.
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Segunda-feira, Setembro 10, 2007
Megera
Cidade miserável essa, 3 horas para chegar em casa, bosta de subúrbio. E isso de acordar às 5 da manhã? Não é para uma cristã como eu. Bem feito, sua burra. Bem que minha mãe dizia que era para ter casado com o Ernani, o que virou supervisor do supermercado. Esse zinho aqui é um cretino, um merda mesmo. Sem ambição. Um coitado. Fica o dia todo largado por aí, deve estar no bar agora, o desgraçado, bebendo com aqueles amigos chinfrins. Ainda bem que não tem futebol. Mas a Inês é morta, como dizia meu pai. O que é pior é o ônibus. Ficar espremida em pé é coisa de pobre. Aquela esfregação é coisa do demônio. E aquele cheiro de bodum, meu Deus. Ah se soubessem que gosto mesmo é de um homem perfumado, e ainda quando é bem servido. Que nem o namorado dessa vaca do lado. Bem apanhado, educado, respeitador. E a putinha ainda por cima esnoba com ele. Não sei o que ela viu naquele outro, o que tem cara de tuberculoso. Isso ainda vai acabar mal. Eu que não vou fazer fofoca. Se bem que se o bonitão largasse dela eu podia me aproveitar. Já vi como ele olha pra mim, guloso. Guloso e safado, o homem. Ai meu Deus, tenho que ir a igreja. Já tem uma semana que não me confesso. E essa quentura aqui no meio das minhas pernas não é normal. O inútil não preparou nada pra janta. De novo. Vou me virar com o que tem. Estou tão cansada. Bosta de vidinha ridícula. Bosta, bosta, mil vezes bosta. E a vaca da vizinha no bem-bom. Deve estar trepando por aí, a meretriz. Olha ela aí chegando toda faceira, que inveja. Ai meu Deus, um tiro.
Deu cabo dela o corno. Bem feito, rameira.
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Segunda-feira, Agosto 20, 2007
Escritor
Depois de horas, olhando aquela resma de papel, me dei por vencido. Meus dedos travaram, minha boca secara. A mente se transformara em um campo estéril, sem vida. Minhas idéias se diluíram no mar de álcool consumido. Olhei o fundo do copo. Nenhuma gota, nada. A inspiração não deu sua cara, debochada. Ficou, talvez, perdida em meio à fumaça, dos muitos cigarros que fumara. O silencio era quebrado pelo bater ritmado do relógio de parede. A penumbra sufocante daquele quarto não me dava trégua, insuportável. Angustiado resolvo sair. Pela janela observara o movimento sutil da cidade. Talvez ali encontrasse essa musa desgraçada que atira, sem piedade, seu escárnio em meu rosto. Um vento frio me envolve. Uma bofetada. Encolho-me. Caminho pelas ruas já escuras. Ouço o som dos carros, das risadas bêbadas de algum bar próximo. Meus passos são absorvidos pelo pulsar do coração pétreo que sustenta a cidade. Pedras, pedras. Desvio para o beco mais próximo. Talvez ali, em meio ao fétido cheiro de lixo apodrecido, encontre-a. Musa, vagabunda. Flertando com outro, como uma rameira. Talvez na próxima esquina. Atento, ouço passos. Um tiro. O grito amargurado transborda da janela semi-aberta.
Encontro, enfim, a inspiração.
Leiam "Louco" um pouco mais abaixo.
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Quarta-feira, Agosto 15, 2007
Louco
Observava, na esquina escura daquele beco fedorento. A fumaça do cigarro irrita meus olhos. Mas não perco de vista a janela. Não uma janela qualquer, a janela dela. Pensava nos últimos dias. Em como eu, cafajeste, havia caído tanto. Me sentia sem chão. Meu mundo todo revirado. Por causa dela. Todas as minhas angústias e medos surgiram. Como um furacão, varrendo para longe toda e qualquer esperança de proteção. Seu perfume, o cheiro que exalava depois do banho, suas curvas, aquele olhar safado e ao mesmo tempo terno. Suas doces palavras de carinho. As horas ao meu lado. Sua mão me amparando quando caía na sarjeta, embriagado. Sangrava por ela. Pela mulher-amante que tinha esbarrado sem querer. “Mas que merda!”, exclamei mentalmente. Onde estariam meus brios de macho comedor? Como iria encarar a roda do bar. Onde conto minhas conquistas, cada detalhe sórdido, das trepadas que dava. Onde bebo com prazer os olhares invejosos dos meus amigos. Onde tantas vezes enchi a cara para esquecer, dela. A janela escura não dava o menor sinal de esperança. Esperança de quê, porra? De ter uma vidinha mais ou menos, da infernal rotina do casamento? Do papai-e-mamãe regulamentar, que tantas vezes ouvira os otários casados reclamarem? Que se foda. Eu quero esta merda. Casaria com prazer, com ela. Por que não disse antes? Sou uma besta. Agora estou aqui, numa esquina fétida, angustiado, cercado por amarguras, desesperançado. Onde estará ela? No mínimo trepando com outro otário, que se deixou levar pelo canto de sereia. Vagabunda. Meus chifres crescem. Cadê a maldita garrafa? Aqui, aqui, ah, minha companheira, que tanto me consolou. Que presenciou minhas conquistas fugazes. Apoiou nas horas incertas e inúteis. Dê-me um gole. Um não, vários. Preciso de lucidez, coragem. Vislumbro um vulto. Há luz agora. É ela, minha amada. Não, a piranha que me sugou a alma. Apago o cigarro, o último. Dou meus passos. Dou-lhe um tiro.
Vagabunda.
Escrito pelo Bêbado de Rayol.
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Segunda-feira, Julho 30, 2007
À minha amada
Acordei tarde. A luz do sol aquecia meu leito. Meu não, o nosso. Ainda estavam presentes os ecos de nossos suspiros. Pelas paredes. O suave cheiro de seu perfume impregnava nosso quarto. Tantas lembranças me assaltaram, meu amor. Estou submerso em recordações. Desde o primeiro momento em que nossos olhos se encontraram. Lembro-me bem da luz radiante que a cercava. Do sorriso faceiro que teimava em permanecer em sua face. Das primeiras e tímidas palavras que trocamos. Pensei, naquele instante, em um poema, de Neruda ou de outro qualquer. Não importa. Minha mente estava repleta de você. Agora, sonho acordado. Embalado por sua voz, que sei distante, mas não ausente. Imagino por onde teus pés a estarão levando. Pobre de mim, que não posso acompanhá-la. Sabes bem que não por minha vontade. Estaríamos, se assim o fosse permitido, caminhando pelas areias da praia, desvendando o significado do barulho do mar. O sol não seria um concorrente à altura. Seu brilho ofusca a mais bela das estrelas. Peço aos anjos, seus guerreiros, serenidade para enfrentar a minha saudade. Saudade, sentimento tão dúbio, angustiante e voraz. Devo, não, preciso colocar em palavras, mesmo incertas, a impressão de tantos sentimentos. Traço, em papéis alheios, estas linhas. Minha herança, ávida esperança, para nosso futuro. Insisto em fazê-lo, mesmo sem saber como. Guarde esta carta, minha amada, com carinho. Uma prova de que estou preenchido pelo meu amor por você.
Escrito ao alvorecer de um dia qualquer.
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Visitem o Pseudo-Poemas. Leiam também o que publico no Cantábile. Em ambos estão os textos proibidos pela bíblia e pelo Vaticano. E agora também no Memórias Póstumas de um Puto Prestimoso.
Prestigiem o lançamento do livro BRINCANDO COM PALAVRAS, da nossa amiga Márcia (Clarinha). Se quiser ajudá-la, divulguem a obra publicada. Para adquirir o seu exemplar, visitem o blog.
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Quarta-feira, Julho 18, 2007
Esclarecimentos
Não sou falso modesto. Nunca me imaginei escrevendo poesias. Na verdade não tem muito a ver com meu temperamento tosco. Comecei este blog por que estava me tratando de transtorno de ansiedade com uma leve depressão. Encontrei aqui o caminho para botar para fora minhas neuras e meus fantasmas. Nem tudo que escrevo tem a ver com o que sinto ou passo. Mas muita coisa sim. os elogios que recebo são uma grata surpresa. E isso é dito de coração. Além de um tratamento virou um prazer. Saber que o que escrevemos faz sentido para alguém não tem preço, mesmo sendo meio angustiante as letras escritas. Agradeço a todos mesmo. Não só pelo carinho, mas por aprender com vocÊs todos os dias.
PS: Por falar nisso publiquei mais um instigante e erótico texto no Puto Prestimoso, prestigiem, e critiquem.
Publicado por Ricardo Rayol às Quarta-feira, Julho 18, 2007 |
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